SISTEMA INTENSIVO DE SUÍNOS CRIADOS AO AR LIVRE - SISCAL: MANEJO, ÍNDICES DE PRODUTIVIDADE, CUSTO DE IMPLATAÇÃO E PRODUÇÃO - EMBRAPA - CNPSA

 

Osmar Antônio Dalla Costa(*)

(*) Pesquisador da Embrapa Suínos e Aves - CP.21, CEP 89.700-000, Concórdia -SC, Brasil.

 

    INTRODUÇÃO

 

O Sistema Intensivo de Suínos Criados ao Ar Livre (SISCAL) teve a sua origem em países europeus, no final da década de 50, e foi introduzido no Brasil no final da década de 80, com técnicas de manejo baseadas em experiências européias. Observou-se que algumas práticas apresentavam-se inviáveis, principalmente na interação homem, animal, solo e planta, ocasionando por vezes problemas ambientais e sanitários que tinham reflexo negativo nos resultados de produtividade.

 

O SISCAL é caracterizado por manter os suínos em piquetes com boa cobertura vegetal, nas fases de reprodução, maternidade e creche, cercados com fios e/ou telas de arame eletrificado - através de eletrificadores de correntes alternadas. As faces de crescimento e terminação (25 ao 100 kg de peso vivo) ocorrem no sistema confinado.

 

Este texto reune experiências e resultados obtidos nos últimos anos no SISCAL da Embrapa Suínos e Aves, em Concórdia, Santa Catarina, e em outros sistemas, relativos ao manejo do dia a dia.

 

·        LOCAL

 

O SISCAL não deve ser instalado em terrenos com declividade superior a 20 %, dando-se preferência a solos com boa capacidade de drenagem.

 

·        ÁREA POR ANIMAL

 

A área destinada aos animais depende das condições climáticas, das características físicas do solo (drenagem, capacidade de absorção de água e da matéria orgânica) e do tipo de cobertura do solo (forragem).

 

Em terrenos bem drenados com boa cobertura vegetal, sugere-se para as fases de cobrição e gestação uma área de 800 m2/matriz, dividida em 4 a 6 subpiquetes, cuja ocupação deve ocorrer de forma alternada. O número de matrizes por lotes não deve ser muito grande, no máximo 6 matrizes, para evitar problemas com a competição por alimento e permitir o uso adequado das cabanas.

 

 

·        TEMPO DE OCUPAÇÃO

 

O tempo de ocupação dos piquetes deve ser aquele que permita a manutenção constante da cobertura vegetal sobre o solo e uma recuperação rápida da mesma.

 

No SISCAL da Embrapa Suínos e Aves o tempo médio de ocupação dos piquetes de gestação é de 20 ± 7 dias. Em períodos com intensa pluviosidade ou seca ocorre diminuição do tempo de ocupação devido ao desgaste da pastagem e do solo.

 

·        COBERTURA VEGETAL

 

            O sistema deve ser implantado sobre gramíneas resistentes ao pisoteio, de baixa exigência em insumos, perenes, de alta agressividade, estoloníferas e de   propagação por  muda ou semente.  Tais como uma combinação das seguintes gramíneas: missioneira (Aronopus compressus), hematria (Hematria altissima), estrela africana (Cynodon plectostachyius), bermuda (Cynodon dactylon) e quicuio (Pennisetum clandestinum). No inverno semeia-se o azevém anual (Lolium multiflorum), bem como ocorre o rebrote natural da aveia (Avena sativa) e vica ou ervilhaca (Vicia sativa) que são  leguminosas. Na semeadura deve-se ter o cuidado de não mexer muito na estrutura do solo.

 

 

·        CERCAS

 

Como objetivo de facilitar a limpeza do solo sob a cerca, sugere-se colocar dois fios de arame nos piquetes de cobertura, pré-gestação, gestação e maternidade a 35 e 60 cm do solo.

 

Deve-se limpar constantemente o local sob as cercas, através do ato de roçar (não capinar), mantendo o solo coberto nesta área, a fim de permitir boa visualização dos fios e evitar curtos-circuitos.

 

A creche deve ser cercada com tela metálica de arame galvanizado, malha 4 ou 5, preza ao chão. Pela parte interna do piquete colocar um fio de arame eletrificado (corrente alternada), a 10 cm do solo, até a primeira semana após o desmame; após este período a corrente elétrica pode ser desligada.

 

 

·        BEBEDOUROS

 

O bebedouro mais utilizado é o de vasos comunicantes com bóia.O sistema de fornecimento de água deve ser feito mantendo-se uma caixa d'água, como reservatório, num ponto mais alto do terreno. A canalização deve ser enterrada a uma profundidade de ± 35 cm, evitando assim o aquecimento da água nos dias mais quentes. Deve-se evitar que a água escorra para o interior dos piquetes, impedindo a formação de lamaçal, o que pode ser feito com o uso de uma chapa coletora de água sob os bebedouros e a colocação dos mesmos na parte mais baixa dos piquetes. Os bebedouros devem ser limpos diariamente e protegidos da ação solar. Com o uso do sistema de rotação dos piquetes, os bebedouros que não estão sendo usados devem ser desligados do sistema de fornecimento de água, impedindo-se assim o desperdício de água.

 

·        COMEDOUROS

 

Os comedouros devem ser móveis e confeccionados com materiais leves e resistentes, tais como, madeira dura ou de lei, metal e pneu, com o objetivo de trocá-los de local com facilidade.

 

Com a ação constante do pisoteio dos suínos próximo ao comedouro, o solo pode ficar sem cobertura vegetal e favorecer a formação de lodo e a compactação do solo. Isto pode ser evitado com a mudando-se o comedouro de lugar.

 

·        CABANAS

 

As cabanas devem ser resistentes e leves para facilitar o seu deslocamento.

 

A cabana de maternidade abriga uma fêmea com sua respectiva leitegada, possuindo uma única entrada na parte frontal. Recomenda-se a colocação de janela na parte posterior da cabana para o controle da ventilação e a colocação de um assoalho móvel e um protetor de ferro em toda a sua parte interna para evitar esmagamento dos leitões.

 

É importante prever sombra natural (árvores) ou artificial (sombreadores) nos piquetes. A área do sombreador deve ser no mínimo de 9 m2 por matriz na lactação e de 4,5 m2 por matriz na gestação.

 

 

·        DESTROMPE

 

Os suínos, quando mantidos em piquetes, voltam a exercitar seu hábito, inerente a espécie, de fuçar e revolver a terra. Através desse hábito destroem as pastagens de cobertura do solo, favorecendo a erosão. O meio mais eficaz para evitar que os animais fuçem o solo é a utilização da prática do destrompe.

 

·        ALIMENTAÇÃO

 

A ração utilizada no SISCAL tem a mesma composição energética e protéica que a do confinamento.

 

As matrizes em gestação recebem, em média, diariamente 2 kg de ração em uma única refeição, nas primeiras horas da manhã.

 

Na lactação as matrizes devem receber ração à vontade. Na creche é fornecida ração à vontade. Nos primeiros 15 a 20 dias após o desmame os leitões recebem ração pré-inicial. Após este período, passam a receber ração inicial até os 70 dias de idade.

 

 

  ORGANIZAÇÃO DA PRODUÇÃO

 

Para que haja uma uniformidade, ao longo do ano, do volume do produto a ser comercializado e otimização da mão-de-obra, o SISCAL deve ser conduzido através da formação de lotes e sua produção deve ser escalonada. O escalonamento pode ser semanal, quinzenal, de 21 em 21 dias, ou mensal e é definido pelo número de matrizes a ser utilizado.

 

·        LEITÕES

 

As práticas de uniformização do tamanho e peso das leitegadas e identificação dos leitões (mossagem, brinco), corte ou esmagamento da cauda, dos leitões, o corte dos dentes, castração, e aplicação de um anti-parasitário, normalmente são feitas no dia do parto ou no segundo dia após o parto.

 

Para realizar estas práticas de manejo os leitões são colocados em uma caixa, ou outro recipiente, e levados fora do alcance da mãe, em outro piquete ou em local específico para este fim. Este fato é importante, pois a fêmea torna-se irrequieta, podendo agredir o tratador.

 

Em geral no SISCAL não tem sido adotado a prática da aplicação de ferro para a prevenção de anemia ferropriva dos leitões lactentes.

 

·        FÊMEAS

 

As fêmeas, durante a gestação, são mantidas em piquetes coletivos com sistema rotativo de piquetes. Os lotes devem ser formados de acordo com o estado fisiológico (dias de gestação) das matrizes. Não se recomenda lotes com mais de 10 matrizes, em função do sistema de alimentação.

 

Cinco a dez dias antes do parto são transferidas para piquetes de maternidade, individuais ou coletivos, para que se adaptem às cabanas e construam seus ninhos. Recomenda-se manter um afastamento superior a 20 metros entre as cabanas de maternidade para facilitar o isolamento durante o parto.

 

Todo deslocamento de animais deve ser durante as primeiras horas do dia e deve ser realizado com tranqüilidade e utilizando-se tábuas de manejo.

 

 

·        DESMAME

 

Em geral, o desmame é feito entre 21 a 35 dias de idade.

 

 

·        CRECHE OU RECRIA

 

Após o desmame os leitões são transferidos para um piquete de creche ou recria. Neste piquete os leitões recebem água à vontade (limpa, fresca e isenta de qualquer contaminante) e ração pré-inicial por 15 a 20 dias e inicial até 60 a 70 dias de idade (25 a 30 kg) quando então passam para as fases de crescimento e terminação em confinamento.

 

 

·        COBERTURA

 

O criador deve estar bem organizado para permitir que a cobertura seja feita com o máximo sucesso.

 

 

·        ÍNDICES TÉCNICOS

 

Os índices de  produtividade obtidos juntos aos SISCALs, normalmente são semelhantes aos obtidos nos sistemas confinados. A experiência da Embrapa  Suínos e Aves em três anos  junto ao seu SISCAL obtiveram os índices apresentados na Tabela 1.

 

 
 RESULTADOS ECONÔMICOS

 

·        CUSTO DE IMPLANTAÇÃO

 

O custo de implantação do SISCAL, para 28 matrizes e dois reprodutores, nas fases de gestação, lactação e creche foi de US$ 433.62 matriz (Tabela 2). Sendo que 34.66% deste valor foram gastos  com cabanas. O custo das  cabanas de gestação e da creche é  de  US$ 256.14, sendo que 49% deste valor foi gasto com as chapas galvanizadas. Contudo o custo das cabanas de US$ 265.06, e 45% deste valor foi gasto com as chapas galvanizadas. A rede hidráulica  representou 14,41% do custo de implantação. Do montante gasto para a instalação da rede hidráulica, 37,40%  foi gasto com mão de obra. Os gastos com as cercas representaram 33,17%, e 25,76%  do total gasto para a construção das cercas foi gasto com a mão de obra.

 

A fábrica e depósito de ração, representaram 10,29% sobre o custo total de implantação nos sistemas. Os comedouros de gestação, lactação e da creche foram os itens de menor peso sobre o custo de implantação, 7,42%.

 

 

·        CUSTO DE PRODUÇÃO

 

O custo de produção por quilo de leitão, aos 63 dias de idade e com 24Kg, foi de US$ 1.045 tabela 3.

            Os custos fixos representaram 4,69%  do custo total por quilo de leitão produzidos, no SISCAL.  A depreciação das instalação foi o item de maior peso nos custos fixos, representando 71,43%.

 

Os custos variáveis representaram 95,31%  do custo de produção, onde a alimentação contribuiu em 75,10% para a formação dos custo variáveis, seguido do item mão de obra, 7,93%.

 

 

·        PERFIL DOS PRODUTORES QUE UTILIZAM O SISCAL NO BRASIL

 

Como objetivo de conhecer o perfil dos produtores de suínos no Brasil que utilizam o  SISCAL, realizou-se um estudo em 54 produtores, e em 44 (84,6%)  produtores de suínos optaram por este sistema em função do seu baixo custo de implantação. Destes produtores 23,3% tinham menos de 30 anos de idade, 34,9% do produtores tinham entre 30 a 40 anos de idade, e 41,9% tinham mais de 40 anos de idade.

 

O grau de escolaridade dos produtores entrevistados é baixo, sendo que 76,7% tinham o primeiro grau completo, 16,3% com o segundo grau completo e 7% com nível superior.

 

Observou-se que um percentual de 13,6% do sistemas foram implantados em solos com declividade acima de 20%.

 

Dos produtores que utilizam o SISCAL, 56,8% possuíam experiência na atividade suinícola. A mão de obra utilizada neste sistema é familiar, pois 69% dos produtores não contratam mão de obra.

 

Com relação as práticas de manejo observou-se que 88,4% dos produtores fazem diagnóstico de cio e somente 9,3% não controlam a cobertura. O acompanhamento do parto é uma prática de rotina para 62,8% dos produtores. A maioria dos produtores: cortam o rabo, os dentes, fornecem ração pré-inicial aos leitões durante a lactação e não aplicam ferro. O corte do umbigo não é realizado por 55,8% dos produtores.

 

Somente 20,5% dos produtores não estão satisfeitos com o SISCAL.

 

Dificuldades com o sistema estão sendo enfrentadas por 68,2% dos produtores, com relação ao manejo da área do sistema e dos animais.

 

 

·        LINHA DE PESQUISA

 

O Centro Nacional de Pesquisa de Suínos e Aves (CNPSA) vem trabalhando no Sistema Intensivo de Suínos Criados do ar Livre, com o objetivo de desenvolver  um pacote de tecnologia viabilizado este sistema de produção de suínos em diferentes regiões do Brasil através da realização de cursos, simpósio, encontros  técnicos, e dia de campo  e a realização de estágios no CNPSA para produtores e técnicos ligados a cadeia produtiva de suínos.

 

Na região Sul do Brasil o CNPSA, está acompanhando o desenvolvimento deste sistemas SISCAL em 10 unidades de observação, através um levantamento sanitário (sorológico e parasitolóogico)  e dos coeficientes técnicos dos sistemas.

 

  CONCLUSÃO

 

            O Sistema Intensivo de Suínos Criados aos Ar Livre é viável, pois o desempenho das matrizes e das leitegadas apresentam resultados semelhantes ou superiores aos suínos mantidos no sistema confinado.

 

            O SISCAL é mais econômico com menores custos de implantação e produção constituindo-se numa boa opção para os suinocultores que:     irão iniciar uma criação de suínos e não querem ou não podem fazer  um investimento inicial muito grande; que têm sua a criação instalada e, para aproveitar o preço bom dos suínos em determinadas épocas, quer aumentar a sua produção;

 

            O agricultor, produtor de grão que, obteve uma super produção de grãos, mas o preço dos cereais encontra-se baixo, pode transfomar a sua produção em suínos;

 

            Cultivo e adubação  de áreas de baixa fertilidade dos solos.

 

Tabela 1.  Índices técnicos obtidos æu(td ao SISCAL da Embrapa

              Suínos e Aves.

Variáveis do custo

SISCAL

N Leitões Nascidos Vivos por Parto

9.9

 N Leitões Desmamados por partos

8.8

Peso Médio dos Leitões ao Nascer

1.6

Peso Médio dos Leitões ao Desmame

8.9

Peso Médio dos Leitões ao Sair da Creche

29.3

Idade de Desmame (dias)

27.1

Idade dos Leitões Saída da Creche (dias )

69.5

N de leitões Nasc. Vivos/Porca/Ano

20.58

N de leitões Desmamados Porca/Ano

18.02

 

Tabela 2. Custo de implantação do SISCAL

Ítem

Valor total

Cabanas:

3.472,02

Comedouros:

609,00

Sistema Hidráulico

1.095,39

Formação de Piquetes

2.989,45

Mão de obra

2.725,50

Subtotal

10.891,36

Depósito e F. ração

1.250,00

Total

12.141,36

Custo por matriz

433,62

 

 

Tabela 3.  Custo de produção (kg) dos leitões (63 dias de idade) no SISCAL.

 

Variáveis do custo

 

 

SISCAL1

1. Custos Fixos

 

  1.1 Deprec. das Instalações

0,035

  1.2.Deprec. dos Equipamentos

0,011

  1.3 Juros s/ Capital Médio

0,000

  1.4 Juros s/ Cap. em Reprod.

0,003

  1.5 Juros s/ Animais Estoque

0,000

Custo Fixo Médio

0,049

2. Custo Variaveis

 

  2.1 Alimentação

0,748

  2.2.Mão de Obra

0,079

  2.3 Produtos Veterinários

0,000

  2.4 Transporte

0,091

  2.5 Energia e CombustÍvel

0,006

  2.6 Manutenção e Conserv.

0,010

  2.7 Despesas Financeiras

0,000

  2.8 Funrural

0,015

  2.9 Eventuais

0,047

 

Custo Variável Médio

 

 

0,996

 

Custo Total Médio

 

 

1,045

 

 Tabela 4. Perfil dos produtores de suínos que utilizam o SISCAL no Brasil.

 

 

Variáveis

 

 

Classes

 

Freqüência Absoluta

 

 

Freqüência Relativa

Idade do produtor

< 30 anos

30 a 40 anos

> 40 anos

10

15

18

23,3

34,9

41,9

Escolaridade

1 Grau

2 Grau

Nível superior

37

7

3

76,7

16,3

7,0

Declividade do solo

< 20 %

>21 %

37

6

86,4

13,6

Tem experiência na suinocultura

Sim

Não

25

19

56,8

43,2

Contrata mão de obra

Sim

Não

13

29

31.0

69.0

Faz diagnostico  "i           

Sim

Não

38

5

88,4

11,6

Controla a coberturas

Sim

Não

39

4

90,7

9,3

Acompanha o Parto

Sim

Não

27

16

62,8

37,2

Corta o rabo dos leitões

Sim

Não

38

5

88,4

11,6

Corta os dentes dos leitões

Sim

Não

42

1

97,7

2,3

Aplica ferro aos leitões

Sim

Não

9

34

20,9

79,1

Fornece ração pré-inicial

Sim

Não

42

1

97,7

2,3

Corta o umbigo

Sim

Não

19

24

44,2

55,8

Satisfação com o SISCAL

Sim

Não

35

9

79,5

20,5

Possui dificuldade com o SISCAL

Sim

Não

30

14

68,2

31,8